Saúde

Tricomoníase

Não se trata de fomentar o medo, como muitos acreditam, mas de mostrar os caminhos para um sexo seguro, com consentimento e responsável. A tricomoníase é uma IST que felizmente tem cura, mas deve ser levada a sério.

A tricomoníase é uma Infecção Sexualmente Transmissível (IST) causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis. Segundo um relatório de 2015 da OMS, aproximadamente 152 milhões de pessoas no mundo possuem a doença. Esses números altos têm explicação pois, como mostram os dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), apenas 30% das pessoas acabam desenvolvendo sintomas, o que torna a sua identificação difícil.
A doença em si causa sintomas leves de vaginite nas mulheres e uretrite nos homens, como coceira, vermelhidão e inflamações, entretanto, se não for tratada, pode trazer complicações graves e inclusive levar à infertilidade.
Ainda assim, é bastante difícil diagnosticar a doença nos homens. Eles normalmente só descobrem a doença e começam o tratamento após a parceira ser diagnosticada.
Felizmente, a tricomoníase tem cura. O tratamento envolve o uso de alguns antibióticos e tem como objetivo eliminar o agente protozoário do organismo. A melhor forma de se prevenir é através do uso da camisinha, mas medidas de higiene também devem ser tomadas.
A tricomoníase pode ser transmitida através do sexo desprotegido com uma pessoa contaminada. Ela ocorre principalmente nas relações homem-mulher e mulher-mulher, sendo quase inexistente em relações homem-homem.
Nas mulheres, o protozoário costuma se instalar no trato genital inferior (vulva, vagina, cérvix e uretra), enquanto nos homens a infecção costuma acontecer na parte interna do pênis, a uretra.
Como o Trichomona tende a desenvolver infecções somente na região urogenital, não é comum que haja acometimento de outras partes do corpo, como as mãos, boca ou ânus.
Apesar de raro, o contágio também pode ocorrer através de objetos contaminados, como toalhas (especialmente as molhadas) e assentos de vasos sanitários.
Durante o parto, pode ocorrer a chamada transmissão vertical. Ela ocorre geralmente quando a mãe recebeu o diagnóstico e não se tratou adequadamente ou não apresentou a forma sintomática da infecção (portanto, não sabe que está infectada).
Esse tipo de transmissão acontece em aproximadamente 5% das bebês filhas de mães infectadas, mas tende a ter uma resolução espontânea no recém-nascida pouco tempo depois do parto.
Isso ocorre porque os hormônios da mãe agem sobre a superfície da vagina da bebê, permitindo a colonização do Trichomona. Porém, esse efeito hormonal é limitado e desaparece em poucas semanas, fazendo com que o organismo da criança seja capaz de eliminar o agente infeccioso. Contudo, ainda pode ser que seja necessário tratar a tricomoníase durante as 3 primeiras semanas de vida.
Os sintomas da tricomoníase podem passar despercebidos na maior parte das vezes. Na verdade, estima-se que apenas 30% dos infectados manifestam sintomas, fazendo com que os pacientes só identifiquem que estão com a infecção quando vão fazer um exame de rotina, como o papanicolau.
Quando os sintomas se manifestam, eles podem variar de uma pequena irritação até inflamação grave do aparelho genital. Eles costumam demorar de 5 a 28 dias para aparecerem (devido ao período de incubação do parasita), mas há relatos de pacientes que só tiveram sintomas algum tempo depois desse período.
Homens e mulheres experienciam os sintomas de maneiras diferentes.
Nas mulheres, a tricomoníase costuma desenvolver quadros de vaginite, causando sintomas mais evidentes e incômodos, como:
* Corrimento branco, cinzento, amarelo ou verde com mal cheiro
* Vermelhidão genital
* Sensação de urgência urinária
* Sangramentos vaginais
* Coceira na vagina
* Sensação de queimação
* Inflamação da área genital
* Dor ao urinar ou no ato sexual

Tais sintomas são mais intensos e severos durante a menstruação, pois a inflamação causada pela infecção piora muito durante o período menstrual e gestacional, causando inflamação do períneo, grandes lábios e pele adjacente.
Quando a infecção é aguda, pode ocorrer vulvite por conta das secreções abundantes. Esse sintoma pode ser visto através de sangramentos na mucosa vaginal e cervical.
Na infecção crônica, os sintomas geralmente são mais amenos e leves, apresentando prurido e desconforto durante as relações sexuais.
Quando ocorrem, os sintomas nos homens tendem a ser mais brandos. Eles são caracterizados como uretrite. Entenda:
* Corrimento com cheiro desagradável
* Coceira
* Sensação de queimação ao urinar ou durante a ejaculação
* Urgência urinária

O diagnóstico da tricomoníase normalmente é feito por um ginecologista ou urologista através de exames de rotina, quando o médico avalia o corrimento e o odor que vêm da vagina ou do pênis.
Não é possível diagnosticar a tricomoníase exclusivamente com base nos sintomas, já que eles são parecidos com os de outras IST. Portanto, para se confirmar a suspeita, normalmente o médico vai pedir a realização de alguns exames específicos.
Se, por um lado, é fácil ter uma suspeita no caso das mulheres, para os homens a coisa é um pouco diferente. É muito difícil diagnosticar a doença nos homens, que acabam recebendo tratamento somente quando sua parceira é diagnosticada.
Em alguns casos, a tricomoníase é diagnosticada a partir da manifestação de outras condições, como uretrite (inflamação da uretra), prostatite (inflamação da próstata), epididimite (inflamação do epidídimo) e infertilidade, algumas das complicações da tricomoníase.

Abaixo os principais testes utilizados para o diagnóstico da Tricomoníase:

1. Papanicolau
O papanicolau é um dos exames mais importantes para mulheres sexualmente ativas. Isso não só porque ele pode identificar doenças como a tricomoníase como também pelo fato de detectar diversos tipos de câncer.
Em geral, o exame costuma ser rápido e simples de ser realizado. O médico observa a parte interna da vagina (colo do útero) e faz uma pequena raspagem da superfície, que é enviada ao laboratório.
No caso do T. vaginalis, o papanicolau tem uma sensibilidade baixa. A eficácia costuma ser de 50%, sendo que existe uma alta taxa de falsos positivos.

2. Teste de PH vaginal
Os testes de pH vaginal buscam detectar se há desequilíbrio de acidez vaginal da mulher, que deve ser entre 3,8 e 4,5, enquanto, em casos de tricomoníase, esse número fica entre 5 e 6. A secreção vaginal é coletada, de forma indolor, e depois levada para o laboratório, onde serão feitos testes com a amostra.
Através dos números obtidos, é possível ter uma noção maior de qual agente infeccioso pode estar causando o desconforto.

3. Exame de cultura
O exame de cultura é confirmatório. Nele, coleta-se uma amostra do corrimento. Essa amostra é cultivada e posteriormente observada no microscópio, onde se pode verificar qual o agente infeccioso.

4. Exame de citologia
Outro exame confirmatório, a citologia faz uso de uma gota do corrimento colocada sobre uma lâmina com solução fisiológica. Dessa forma, é possível observar no microscópio a presença do agente infeccioso.

A tricomoníase tem cura. através do uso de antibióticos e quimioterápicos, é possível eliminar a infecção. Esse tratamento, contudo, não evita que futuras infecções ocorram.
O tratamento tem como objetivo eliminar a infecção. Num primeiro momento, o paciente deve se abster sexualmente, pois é necessário reequilibrar o organismo e evitar o aumento do desconforto e o possível surgimento de novas doenças.
Essa medida também é importante para manter a segurança dos seus parceiros, pois assim não se corre o risco de passar a doença para frente.
Em seguida, o uso de antibióticos e quimioterápicos é indicado, sendo que tanto o paciente quanto o seu parceiro devem passar pelo tratamento para eliminar o risco de reinfecção. Para as mulheres, há a opção de fazer o tratamento oral de dose única em conjunto com o uso de creme vaginal.
Com o tratamento adequado e o uso correto dos medicamentos, é possível que o paciente se recupere bem e sem grandes problemas.
As mulheres grávidas devem se atentar mais aos riscos de complicações que a tricomoníase pode trazer, pois podem afetar tanto ela quanto o feto. Entenda:

* Parto prematuro
Quando a infecção acontece durante a gravidez, o Trichomonas vaginalis pode contaminar o líquido amniótico (fluido que envolve o bebê), o que tem como resultado o trabalho de parto prematuro, devido à ruptura de membranas da bolsa com o fluido amniótico.
Essa situação pode trazer problemas para o bebê. É sabido que crianças que nascem prematuras necessitam de um cuidado muito mais próximo e diferenciado, pois o risco de morte é maior, assim como o risco de deficiências permanentes, como a paralisia cerebral.

* Infecção intrauterina
O Trichomonas vaginalis pode acabar causando uma infecção intrauterina, que acontece quando a infecção atinge o bebê ainda dentro do útero.
Nesses casos, o bebê pode sofrer de infecções tanto na área genital, como nas vias aéreas e nos pulmões, o que pode trazer riscos depois do parto.

Se não tratada, a tricomoníase pode trazer algumas complicações para o paciente em geral:

* Aumenta os riscos de HIV e outras IST
Como a tricomoníase pode causar inflamações genitais, isso aumenta o risco de se adquirir HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis.
Isso acontece porque a infecção causa uma inflamação na região genital que, por consequência,leva à uma grande infiltração de leucócitos (glóbulos brancos que são os “alvos” do HIV) na região, deixando a pessoa mais suscetível a infecção.

* Risco de infertilidade
A tricomoníase faz com que a área genital inflame, podendo causar obstrução tubária, o que impede a passagem dos espermatozoides ou óvulos. Com o bloqueio, a pessoa pode se tornar infértil.
Além disso, a doença causa inflamação da parede (epitélio) da vagina e da uretra dos homens, diminuindo a motilidade dos espermatozoides. Se não for tratado corretamente, esse processo pode levar à infertilidade.

* Doença inflamatória pélvica (DIP)
A doença inflamatória pélvica acontece quando o agente infeccioso, no caso o Trichomona vaginalis, se espalha para além da vagina e começa a atingir outras partes dos órgãos sexuais, como útero, trompas e ovários, podendo, em casos graves, atingir o abdômen. Seus sintomas incluem:
– Febre de 38 ºC ou mais
– Dor no ventre quanto apalpado
– Sangramento vaginal fora do período menstrual ou após relação sexual
– Corrimento vaginal amarelo ou verde com mau cheiro
– Dor durante o sexo

* Câncer cervical
O câncer cervical acomete a parte inferior do útero, chamada de colo. Em geral, a mulher apresenta sangramento vaginal como um do primeiros sinais da alteração, mas o início da doença tende a ser assintomática.
Quando diagnosticados precocemente, o câncer de colo de útero ou câncer cervical tende a ter um bom prognóstico, em que geralmente é necessária a remoção do tecido afetado através da histerectomia parcial ou total.
Em estados avançados, é necessária, geralmente, a realização de radioterapia com quimioterapia.

Usar a camisinha é uma ação de cunho individual que previne você de ser contaminado pela tricomoníase e de outras IST, mas também é uma medida coletiva, pois assim, se você estiver contaminado e não souber, não vai transmitir a doença para outras pessoas.
Também é muito importante que, se você souber que está infectado com a tricomoníase, não é uma boa ideia fazer sexo com outras pessoas, mesmo com preservativo.
Como apontamos anteriormente, a eficácia da camisinha varia de 85%, quando não usada corretamente, para 98% quando usada corretamente, então, mesmo sendo baixas, as chances de transmissão existem.
Outro fator muito importante para você se prevenir da tricomoníase é a higiene. Lavar com periodicidade suas toalhas, limpar o banheiro da sua casa, ter atenção ao uso de banheiros públicos, são ações que você pode adotar para não entrar em contato com o Trichomona vaginalis.
Manter a higiene em dia não ajuda você somente a evitar a tricomoníase como melhora a sua qualidade de vida como um todo, pois o risco de infecções na pele, por exemplo, fica significativamente reduzido.
O sexo é um assunto tabu para a maior parte das pessoas. Por essa razão, informá-las sobre as IST e seus perigos pode ser uma tarefa difícil.
Contudo, por maior que sejam as dificuldades de se falar no assunto, é muito importante que as pessoas saibam que o sexo sem proteção pode trazer perigos para a saúde.
Por isso, campanhas informativas e aulas de educação sexual para os jovens em idade reprodutiva são uma grande maneira de se combater a incidência dessas doenças na população.
Não se trata de fomentar o medo, como muitos acreditam, mas de mostrar os caminhos para um sexo seguro, com consentimento e responsável.
Algumas vezes, a infecção por alguma IST é inevitável. Como dito anteriormente, existe a chance da camisinha falhar. Por isso, é muito importante que as pessoas saibam com qual doença estão lidando, se tem cura, qual o tratamento e o que devem fazer para impedir que ela se alastre.
Aproximadamente 1 a cada 5 pessoas são infectadas novamente pelo T. vaginalis nos primeiros 3 meses após o tratamento, sendo que, entre as causas da reinfecção, está o fato de que nem sempre o parceiro realiza o tratamento junto.
Em geral, nos casos que apenas a pessoa com sintomas toma a medicação, o parceiro está infectado mas sem sintomas, fazendo com que a tricomoníase seja transmitida novamente logo após o tratamento.
Justamente para não ser infectado pela doença novamente é importante aprender a tratá-la e evitar os fatores de risco. Como vimos anteriormente, ela pode ser transmitida através de objetos contaminados, então, manter a higiene, por exemplo, é um passo importante para evitar contaminações acidentais. A tricomoníase é uma IST que felizmente tem cura, mas que ainda assim deve ser levada a sério.

 

Biografia:

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Michele K. B. Machado formou-se em Farmácia, no ano 2000, pela Universidade Metodista de Piracicaba. Focou seus estudos na gestão de pessoas e, no varejo farmacêutico, onde atuou nestes 18 anos de formação.
Sua responsabilidade profissional e, seu viés social proporcionaram verdadeiros cases de sucesso no cuidado à saúde da comunidade. Sempre pautada em orientações verticalizadas e socialmente necessárias contribuiu para a manutenção e geração de cuidado à saúde das comunidades em que esteve inserida.

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