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O Investigar Peirceano: compreensões dos tipos de raciocínio-Prof. Me. Jesaías da Silva Souza

"Para averiguar o significado de um conceito intelectual, é preciso considerar que consequências práticas podem ser inferidas como resultantes, necessariamente, da verdade desse conceito." Charles Sanders Peirce

Nosso amigo, Prof. Me. Jesaías da Silva Souza coordenador do curso de Matemática da Universidade de Sorocaba, nos deu a honra de compartilhar seu trabalho que consta publicado no livro :“Metodologias ativas de aprendizagem na Uniso: formando cidadãos participativos”

Este artigo que faz parte do Programa de Aperfeiçoamento Docente, um livro que reuniu teorias, os projetos e as práticas dos participantes das quatro oficinas do PAD (Programa de Aperfeiçoamento Docente) do trabalho realizado na Universidade de Sorocaba .

O Livro “Metodologias ativas de aprendizagem na Uniso: formando cidadãos participativos” é a primeira sistematização do conjunto de teorias,reflexões, projetos e aplicações que foi possível ser realizada durante as primeiras oficinas ministradas no ano de 2015.Composto por 20 textos, de autoria de 29 autores, abordam diversos 14 cursos e componentes curriculares.

O Artigo muito enriquecedor que nos faz ter um olhar diferenciado referente ao estimulo do raciocínio em sala de aula,trabalhando em cima da Abdução, dedução e indução. 

Para o Prof. Me. Jesaías da Silva Souza “A dúvida que se apresenta, no aluno, poder ser expressa na forma de uma pergunta. A ideia é que, para cada conteúdo, busquemos estimular e aproveitar as irritações dos discentes,a fim de iniciar aí a investigação e possibilitar a construção do conhecimento, priorizando o tipo de raciocínio que lhe é pertinente”.

Vamos conferir!

O Investigar Peirceano: compreensões dos tipos de raciocínio-Prof. Me. Jesaías da Silva Souza

 

Introdução
A inquietação de ensinar, visando à produção do conhecimento pelos alunos, impulsionou uma busca por metodologias de ensino e aprendizagem.

O caminho para minimizar as preocupações foi aberto a partir de pesquisas que desenvolvi dentro da área de Educação Matemática sobre o método científico de Charles Sanders Peirce (1839-1914), que norteia não só conhecimentos matemáticos, mas de diversas ciências.
Este método científico proposto por Peirce (1975) é fundamentado no pragmatismo, um procedimento para a verdade (p. 26), baseado na observação. Uma de suas características é a “aceitação de uma perspectiva científica em que predomina o experimentalismo, próprio de quem acolhe as técnicas usadas nos laboratórios” (p. 21).
Tal experimentalismo é destacado no sentido pragmático esclarecido por meio de certas condições do tipo condicional (Se… então…) explicitado na doutrina peirceana.Daí este é um método de análise que tem como objeto o significado dos conceitos com seu único objetivo de tornar nossas ideias claras, a partir daquilo que estamos em contato a todo tempo.Esta análise é descrita mediante a relação crença, dúvida e hábito.
O pragmatismo é um método para investigar: “o que, qual objeto e como ele pode ou não influenciar nossas crenças” (COSTA; SILVA, 2011, p. 21).
Compreendemos ser este o contexto que Peirce elaborou seu conceito de investigação estruturado nos tipos de raciocínio: abdução, dedução e indução. Apresentaremos como está organizado o método científico. Para isso, se faz necessário compreender quando o processo investigativo tem início e suas características, assunto tratado nos encontros do Programa de Aperfeiçoamento Docente (PAD) da Universidade de Sorocaba (Uniso).

 

Princípios do método

A proposta de Peirce sobre o método ou análise científica é descrita mediante as relações entre crença, dúvida e hábito.
A crença é o estado atingido quando uma irritação é removida. Essa irritação é fruto de uma situação em que a certeza é colocada em dúvida, que, por sua vez, produz uma ação reflexiva em decorrência do estímulo irritante (SANTAELLA,2004, p. 63), nesse sentido, para Peirce, “a produção da crença é a função única do pensamento” (PEIRCE, 1992).
Podemos compreender isso quando uma situação resulta em algo que não esperávamos como proveniente de observações realizadas, ou seja, quando percebemos algo e passamos a buscar padrões, conclusões ou não acreditamos no que foi mencionado, uma vez que estamos neste estágio da dúvida, irritados, e nos lançamos em uma investigação.
Ou seja, diante de uma ideia queremos saber se o que pensamos é correto ou não, de acordo com o que se mostra ou porque seu resultado ocorreu. Digamos, como exemplo, se alguém possui uma tabela e esta tem alguns dados que são discrepantes em relação ao que se esperava para a situação apresentada, ficará “irritado” e procurará uma resposta para aquele resultado “novo”. Um médico, diante dos exames que mostram características inesperadas, ou, ainda, um aluno do curso de Veterinária perguntando: por que um animal nasceu albino?
Inicia-se, assim, o processo investigativo, valendo-se dos tipos de raciocínio, buscando voltar à crença que é, de acordo com Santaella (2004, p. 65), uma proposição com a qual concordamos e a dúvida é o estado oposto, é o que discorreremos a seguir, a fim de chegar ao hábito que determinará nossa conduta em situações similares àquela que causou a dúvida.

 

Abdução, dedução e indução

O processo de conhecer algo é chamado, na perspectiva peirceana, de método científico. Tal método possibilita, a partir da dedução, da indução e a abdução, chegar à crença, independentemente da ciência em questão. Para Santaella(2001, p. 126),
Peirce pretendeu que as etapas do método científico fossem procedimentos apropriados a toda e qualquer pesquisa. Tanto quanto posso ver, isso não significa que, em função desse método geral, as ciências deixem de dispor de metodologias específicas, decorrentes de técnicas particulares, criadas e manipuladas pelos especialistas em cada área.O método científico, que nasce da inter-relação da abdução, dedução e indução, advém de uma lógica universal que habita o coração das metodologias.
Refletindo sobre o que diz a autora, podemos dizer que os estágios do método científico presentes em qualquer ciência estariam na inter-relação da abdução, dedução e indução,cujos procedimentos básicos são gerais.
Segundo Costa (1993), na vida cotidiana nos valemos da indução, por exemplo, quando, a partir de certas ocorrências frequentes, tiramos algumas conclusões. Por exemplo, após
algumas experiências positivas, concluímos que o pão nos sustenta.
A dedução é outro tipo de raciocínio logicamente válido,segundo Peirce (2005). Com ela, partimos de premissas, ou seja, um estado de coisas hipotético que se confirma ou não.
O objetivo é concluir algo não explicitado nas premissas.Para o autor, a conclusão é aceita se houve uma “relação entre estado de coisas suposto nas premissas e o estado de coisas enunciado na conclusão” (p. 215).
Na leitura de Peirce (2005), também se compreende que esse modo de raciocínio consiste em elaborar afirmações a partir de um estado de coisas presentes nas premissas, em
detectar relações entre as partes das afirmações a partir de elaborações mentais sobre elas, em mostrar que as relações detectadas são verdadeiras para todos os casos desse tipo, e em formular uma conclusão de modo geral. Partimos de regras dadas, verificamos o caso e chegamos ao resultado analisando de maneira lógica a relação existente entre essa regra e o meu caso.
Já o raciocínio indutivo
[…] consiste em partir de uma teoria, dela deduzir predições de fenômenos e observar esses fenômenos a fim de ver quão de perto concordam com a teoria. A justificativa para acreditar que uma teoria experimental, que foi submetida a certo número de verificações experimentais, será no futuro próximo sustentada quase tanto por verificações ulteriores quanto o tem sido até agora, essa justificativa está em que seguindo firmemente esse método devemos descobrir, a longo prazo, como é que o problema realmente se apresenta (PEIRCE, 2005, p. 219).
Desse modo, a indução pode ser associada à “observação de regras” em que a experiência, ou aquilo que conhecemos,prevalece (mantém-se). Ou seja, há a aposta que se tenha um elemento de racionalidade na experiência, o qual se pode investir.
Porém há casos em que tanto a lógica indutiva quanto a dedutiva podem não estar explícitas. Por exemplo, há dias em que despertamos e, ao olhar pela janela dizemos: “Vai chover!” A cor do céu, o vento, a temperatura e o aspecto das nuvens são elementos que nos levam a dizer que vai chover.
Essa certeza vem da experiência vivida em situações similares. No entanto, tais conjecturas nem sempre se confirmam, embora exerçam influência na maneira como nos organizarmos no cotidiano. Essa situação se diferencia dos outros casos em que tanto a indução quanto a dedução são válidas.
Isso porque, segundo Peirce, não se submete estritamente às regras da lógica clássica, é um raciocínio abdutivo.É o princípio de uma tarefa investigativa organizada, com
objetividade e com possibilidade de criação (abrindo à criatividade) que valoriza o processo de produção do conhecimento. A abdução é, para Peirce, um ato inferencial, uma hipótese provisória que tem origem na pergunta (ou no ato e questionar), ela abre possibilidades de uma nova inteligibilidade do que se vê, do que se pode expressar quando elaboramos uma explicação acerca do que é visto (SOUZA,2014, p. 83).
Este método, como proposto no PAD, foi trabalhado, disposto em três momentos e pensado para a sala de aula. O primeiro é a observação com figuras, vídeos, testes em laboratórios, ou seja, devemos ter um ambiente propício para a percepção. O segundo momento, o da abdução, é o que queremos, mas ele pode ocorrer aos alunos enquanto lecionamos, sem uma intenção por parte do professor, pois, a partir do instante em que o discente está percebendo o assunto, levanta hipóteses e estas podem nortear estudos futuros.O docente deve aproveitar essas oportunidades, por ser a tarefa ou não, a intenção é abrir possibilidades de investigação.
O terceiro é a verificação que podemos nos valer do raciocínio dedutivo ou indutivo.

 

Exemplo da elaboração de tarefa .

Esta tarefa, pelo conteúdo, será estudada por meio do raciocínio indutivo.
Queremos falar sobre Gestão de pessoas.
Precisamos primeiro verificar, O que diz a teoria?
Depois procuramos elaborar o 2º momento (descrito abaixo) com base na definição. A ideia é que, ao final, o aluno escreva uma definição do objeto de estudo, mesmo de maneira aproximada, confrontando com a já formalizada (as trazidas pelas bibliografias).
De modo geral temos que:
• Escolher um assunto (teoria), que, neste exemplo, é a definição de gestão de pessoas.
• Elaborar uma situação de observação (imagens ou experimentos).
• Verificar a veracidade das possíveis hipóteses (o que podemos observar nas figuras ou nos experimentos desde que tenha fundamentos).
• Comparar as predições advindas da hipótese com os resultados do experimento (buscar, a partir das análises, generalizar a ideia de gestão).
Toda tarefa, que será norteada pela indução, tem as seguintes particularidades:
a) a classificação, em que as ideias gerais são atadas a objetos da experiência;
b) a comprovação, em que essas ideias são testadas,considerando-se os consequentes experimentais;
c) a fase sentencial, quando o investigador avalia as diferentes comprovações isoladamente, então, suas combinações fazem, a seguir, uma autoavaliação dessas avaliações e passam, por fim, ao julgamento final dos resultados totais (SANTAELLA, 2004, p. 158).

 

Conclusão

Com base no que expusemos, podemos identificar qual é o raciocínio predominante nas tarefas que elaboramos para os alunos, sabendo-se que a abdução está presente em todas
as ciências no início de cada estudo, no momento em que o estado de crença dá lugar ao da dúvida. A investigação acontece no buscar sanar a inquietação para chegar novamente à crença.
Nesse sentido, partimos de hipóteses. Pela observação,criamos dúvidas sobre o observado, suspeitamos sobre a veracidade das hipóteses elencadas e sobre o fenômeno estudado. Começamos a construir indagações. As hipóteses,que foram construídas no chamado estágio abdutivo, são verificadas.
Este ciclo é o método investigativo, ou seja, “no momento que um hábito de pensamento ou crença é interrompido, o objetivo é chegar a outro hábito ou crença que
se prove estável” (SANTAELLA, 2004, p. 167).
Para Peirce,investigar “é tornar uma crença cada vez mais determinada”(SANTAELLA, 2004, p. 69).
A dúvida que se apresenta, no aluno, poder ser expressa na forma de uma pergunta. A ideia é que, para cada conteúdo, busquemos estimular e aproveitar as irritações dos discentes,a fim de iniciar aí a investigação e possibilitar a construção do conhecimento, priorizando o tipo de raciocínio que lhe é pertinente.
disponibilizo o livro completo em PDF.metodologias-ativas-na-uniso

 

Biografia
img-20181125-wa0007Doutorando – UNESP – Rio Claro. Mestre em Educação Matemática – UNESP – Rio Claro, possui Especialização em Educação Matemática pela Universidade de Sorocaba – UNISO – (2010), Licenciatura Plena em Matemática pela Universidade de Sorocaba (2008), Pesquisador pela UNISO modalidade PIBIQ/CNPq (2006-2008) atuando principalmente nos seguintes temas: educação, tipos de raciocínio, ensino. Colaborador do Programa de Aperfeiçoamento Docente (PAD). Coordenador dos cursos: Licenciatura em Matemática, Licenciatura em Física e Licenciatura em Química da Universidade de Sorocaba. Presidente do Núcleo Docente Estruturante dos Cursos de Matemática, Física e Química da UNISO. Atualmente leciona na Universidade de Sorocaba – UNISO e na Faculdade Anhanguera Pitágoras Votorantim.
Informações coletadas do Lattes em 03/12/2018

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